Inteligência emocional em tempos de inteligência artificial
Durante muito tempo, fomos levados a acreditar que inteligência era quase sinônimo de desempenho acadêmico. Quem tirava boas notas, falava bem, resolvia cálculos com facilidade ou acumulava diplomas era rapidamente reconhecido como inteligente.
Isso explica uma parte da inteligência. Mas não explica tudo.
A vida mostra, todos os dias, que existem pessoas com pouca escolarização formal e enorme capacidade de resolver problemas, construir negócios, liderar equipes, formar famílias, sobreviver a contextos difíceis e tomar decisões melhores que muitos profissionais com currículo impecável.
Existe uma inteligência que aparece na prática.
Ela está na pessoa que sabe negociar. Na que percebe o ambiente antes dos outros. Na que escuta com atenção. Na que sabe a hora de falar e a hora de esperar. Na que entende o outro sem precisar de muitas palavras. Na que mantém a calma quando todos estão reagindo. Na que transforma experiência em ação.
A inteligência artificial tornou essa discussão ainda mais importante.
Hoje, uma ferramenta consegue escrever textos, resumir documentos, analisar dados, produzir imagens, organizar apresentações, gerar códigos e responder perguntas complexas em poucos segundos. O Fórum Econômico Mundial aponta que IA e big data estão entre as competências que mais devem crescer em importância até 2030. O mesmo relatório estima que 39% das habilidades exigidas no trabalho devem mudar até lá.
Isso impacta a nossa vida. Mas não muda o essencial.
Se a inteligência artificial consegue entregar parte do que antes chamávamos de conhecimento técnico, talvez fique ainda mais evidente o valor de outras inteligências. Principalmente da inteligência emocional.
Daniel Goleman ajudou a popularizar esse debate ao defender que inteligência emocional envolve dimensões como autoconsciência, autogestão, consciência social e gestão de relacionamentos. Em uma formulação anterior, também muito conhecida, o conceito aparecia associado à autoconsciência, autorregulação, motivação, empatia e habilidades sociais. A ideia central é simples e profunda: não basta saber. É preciso saber lidar consigo, com os outros e com a realidade.
Isso me parece cada vez mais atual.

A inteligência artificial pode ampliar a capacidade de produzir. Mas ela não resolve, sozinha, a capacidade humana de conviver, decidir, sustentar confiança e agir com responsabilidade.
No mundo do trabalho, isso já aparece nos dados. O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, ouviu mais de mil empregadores, que representam mais de 14 milhões de trabalhadores em 55 economias. O relatório estima a criação de 170 milhões de novos empregos até 2030 e o deslocamento de 92 milhões, com saldo líquido positivo de 78 milhões. Ao mesmo tempo, aponta que a lacuna de habilidades é a principal barreira para transformação das organizações, citada por 63% dos empregadores.
O dado é importante porque mostra que a transformação não é apenas tecnológica.
As empresas podem comprar sistemas, contratar consultorias, automatizar processos e criar áreas inteiras dedicadas à inovação. Mas se as pessoas não conseguem aprender, colaborar, lidar com mudanças, confiar umas nas outras e tomar decisões sob pressão, a transformação trava.
A inteligência emocional deixa de ser um tema comportamental periférico e passa a ser uma competência de gestão.
A EY publicou recentemente uma pesquisa sobre mobilidade de talentos que ajuda a enxergar isso de forma concreta. Segundo o levantamento, 95% dos empregados dizem que confiança é um fator decisivo para considerar uma mudança de função ou localidade. Funcionários que não confiam na função de mobilidade são quase cinco vezes menos propensos a aceitar novas oportunidades. Além disso, apenas 19% das funções de mobilidade foram classificadas como de alta confiança; essas funções são 1,9 vez mais propensas a relatar velocidade na entrada em novos mercados, 1,7 vez mais propensas a tomar decisões de política com rapidez e 1,6 vez mais propensas a obter retorno positivo significativo sobre seus investimentos.
O que esse dado mostra? Mostra que confiança acelera. Medo atrasa.
Essa talvez seja uma das grandes pontes entre inteligência emocional e inteligência artificial. As empresas querem velocidade. As escolas querem melhorar resultados. As organizações sociais querem ampliar impacto. Mas a velocidade não nasce somente com tecnologia. Nasce também da confiança, da clareza, da escuta, da segurança psicológica e da capacidade de transformar informação em decisão.
Às vezes tratamos inteligência emocional como delicadeza. Não é.
Autoconsciência é saber reconhecer o próprio estado antes de tomar uma decisão ruim. Autorregulação é não despejar ansiedade sobre a equipe. Empatia é perceber que uma pessoa está com dificuldade antes que ela desista. Habilidade social é construir alinhamento sem precisar impor tudo pela força do cargo. Motivação é sustentar direção quando o resultado demora.
Isso é gestão. E isso também é educação.
Na escola, a inteligência emocional aparece quando um professor entende que a indisciplina pode ser um sintoma, não uma afronta. Aparece quando um diretor escuta dados ruins sem procurar culpados. Aparece quando uma coordenação pedagógica ajuda a equipe a olhar para defasagens sem transformar a conversa em julgamento. Aparece quando um estudante aprende a lidar com frustração, erro, convivência e esforço.
A IA pode ajudar muito nesse processo. Pode organizar dados de aprendizagem, sugerir intervenções, apoiar professores, cruzar indicadores, antecipar riscos de evasão e reduzir tarefas repetitivas. Mas ela não substitui a leitura humana do contexto.
- Uma criança que se cala de repente está apenas quieta ou está pedindo ajuda de outro jeito?
- Um professor resistente à mudança está sendo difícil ou está inseguro?
- Uma equipe que não usa dados não acredita nos dados ou nunca aprendeu a transformá-los em decisão?
Essas perguntas exigem técnica, mas também exigem presença.
A McKinsey tem chamado atenção para um ponto parecido em relação à inteligência artificial. Em um artigo recente, os autores defendem que o valor da IA não estará apenas no ganho de produtividade. Fazer mais rápido aquilo que já se faz tende a virar requisito. O maior valor estará em redesenhar ofertas, modelos de atuação e formas de competir.
No relatório The State of AI in 2025, a McKinsey também mostra que quase todas as organizações pesquisadas usam IA, mas quase dois terços ainda não começaram a escalar IA em toda a empresa. Apenas 39% relatam impacto de EBITDA em nível empresarial. O dado reforça uma ideia importante e necessária: usar IA não é o mesmo que gerar valor com IA.
Na educação, o risco é o mesmo.
Podemos usar IA para produzir mais planos de aula, mais relatórios, mais apresentações e mais comunicados. Isso pode ajudar a rotina. Mas o valor real estará em usar a tecnologia para entender melhor os problemas, apoiar melhor as pessoas e tomar decisões mais consistentes.
A inteligência artificial pode responder mais rápido. Mas ainda precisamos saber perguntar melhor.
E saber perguntar melhor depende de repertório, experiência, intenção e leitura emocional da realidade.
Por isso, talvez o debate sobre o futuro das inteligências não deva colocar a inteligência artificial contra a inteligência humana. Essa oposição é pobre. O ponto mais importante é entender quais capacidades humanas se tornam ainda mais relevantes quando a tecnologia passa a fazer parte do trabalho intelectual.
A resposta passa pela inteligência emocional.
Não como autoajuda corporativa. Não como discurso bonito para apresentação de liderança. Mas como capacidade prática de lidar com pressão, ambiguidade, conflito, mudança e colaboração.
O Fórum Econômico Mundial aponta que, além das habilidades tecnológicas, competências humanas como pensamento criativo, resiliência, flexibilidade, agilidade, curiosidade, aprendizagem contínua, liderança e influência social continuarão crescendo em importância até 2030.
Isso deveria orientar escolas, empresas e famílias.
Se a tecnologia muda rapidamente, formar pessoas apenas para executar tarefas é insuficiente. Precisamos formar pessoas capazes de aprender continuamente, lidar com incerteza, trabalhar com outras pessoas, reconhecer emoções, ouvir melhor, decidir com responsabilidade e agir.

Conhecimento que não vira ação tem pouco impacto. E ação sem consciência pode causar estrago.
Talvez seja por isso que o tema das inteligências diversas me interessa tanto. Porque ele nos obriga a olhar para além das réguas tradicionais. Uma pessoa pode ser brilhante academicamente e ter dificuldade de trabalhar em grupo. Outra pode não ter diploma, mas possuir uma inteligência prática rara para resolver problemas. Uma pode dominar tecnologia, mas não conseguir lidar com crítica. Outra pode não falar bonito, mas perceber com precisão o que acontece em uma equipe.
O mundo precisa de todas essas leituras.
A inteligência artificial não elimina a importância das inteligências humanas. Ela aumenta a nossa responsabilidade sobre elas.
Em um tempo em que máquinas produzem respostas, talvez o diferencial humano esteja em formular boas perguntas, interpretar contextos, construir confiança e transformar conhecimento em ação responsável.
Estamos preparando pessoas somente para operar inteligência artificial ou para continuar sendo humanas em um mundo cada vez mais artificial?
[1]: https://www.weforum.org/stories/2025/01/future-of-jobs-report-2025-jobs-of-the-future-and-the-skills-you-need-to-get-them/ "Future of Jobs Report 2025: The jobs of the future – and the skills you need to get them | World Economic Forum"
[2]: https://danielgolemanemotionalintelligence.com/ei-overview-the-four-domains-and-twelve-competencies/ "EI Overview: The Four Domains and Twelve Competencies – Daniel Goleman Emotional Intelligence Courses"
[3]: https://www.weforum.org/publications/the-future-of-jobs-report-2025/digest.com "The Future of Jobs Report 2025 | World Economic Forum"
[4]: https://www.ey.com/en_br/insights/workforce/mobility-reimagined-survey "EY 2026 Mobility Reimagined Survey | EY - Brazil"
[5]: https://www.mckinsey.com/capabilities/quantumblack/our-insights/the-state-of-ai/ "The State of AI: Global Survey 2025 | McKinsey"